Será? Tem coisas, tem coisas que ele escreve que parecem. Não sei, parecem verdade, entende? Ele me toca, mexe comigo. Talvez eu esteja assim, todo lisonjeado, porque alguém parece prestar tanta atenção em mim.
- Digo que às vezes eu tenho vontade de ter outra vez um amigo como aqueles que a gente tinha na adolescência. Aqueles pra quem você contava tudo, absolutamente tudo. E que no fim, você nem sabe mais se é amigo ou irmão. - Ou amante. - Ou amante – ele repetiu. Depois jogou-se outra vez na cama, tirou uma folha amassada do bolso e leu: - Eu digo que estou disposto a qualquer coisa, eu digo assim: “chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso ridículo. Antes que tudo se perca, enquanto ainda posso dizer sim, por favor, chegue mais perto”.
É vontade de sentir aquela coisinha misteriosa de "é esse!". Como será sentir isso? Eu sempre sinto que "pode ser esse, ou talvez com algumas mudancinhas possa ser esse ou talvez se ele quisesse, poderia ser esse...". Não, isso tá errado. Quero sentir que "é esse".
'Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se...'
'...e nunca teve pretensões a amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor.'
Podia ser só amizade, paixão, carinho, admiração, respeito, ternura, tesão. Com tantos sentimentos arrumados cuidadosamente na prateleira de cima, tinha de ser justo amor, meu Deus?
Sinto até hoje a falta de alguma coisa. Qualquer coisa que não sei o que é. Já senti melhor o vento, já fui mais atenta com os livros, já tive uma letra mais bonita, já tive mais tempo para os amigos, já fui menos chata com a comida, já tomei refrigerante sem preocupação, já andei muito de pés descalços, já corri mais do que meu fôlego. E viver não me matou. Hoje me tornei tão cuidadosa a ponto de ser chata, a ponto de colocar cautela na frente da emoção. Hoje tudo tem que ser planejado. Hoje nem pensar em andar descalça ou tirar alguns minutos para me preocupar com raios de sol. Meu jardim é mais do jardineiro do que meu, meu jardim me vê por trás das vidraças todas as manhãs. A vidraça impede de nos tocarmos. A vidraça é a barreira intransponível entre meu relógio e o cheiro da grama amanhecida. Sinto falta do meu jardim. Sinto falta de quem eu era quando estava no meu jardim.